Somente alguns minutos em água quente.

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Mostre-me tuas rugas e te direi quem és

Bom, senhoras e senhores, coelhos e tartarugas, gostaria de dividir convosco uma convicção que tem pairado na minha cabecinha desaparafusada ultimamente: eu sou uma pessoa naturalmente velha.

Não é de agora que eu sei dessa minha condição, eu já tenho consciência disso há muitos anos. Na realidade, acho que sempre soube da minha velhice. Eu nasci velha. Não no estilo Benjamin Button que foi rejuvenescendo aos pouquinhos, mas de forma quase fixa.

Começando pela minha infância, eu nunca fui uma criança de jogar queimada, por exemplo. Subir em árvore? Sempre foi coisa de macaco para mim. Eu era a filha que mamãe pediu a Deus, não dava o menor trabalho. Minha avó paterna se sentava comigo no quintal de casa, antes de eu ser alfabetizada, e lia para mim. Nós ficávamos as duas quietinhas, balançando as pernas para não ganhar belas mordidas de mosquito enquanto meu irmão (que sempre será “jovem ainda”) não tinha a menor paciência e ia embora na segunda página. Eu também jogava xadrez com minha avó.
Quando eu tinha mais ou menos oito anos, já sabia ler (e lia muito, o tempo todo) meu pai me ensinou a jogar gamão. Querido leitor, que criança joga gamão? Eu jogava. E ganhava. Tanto que a uma certa altura meu pai não queria jogar mais comigo porque ele sempre perdia e orgulhosos éramos os dois, tenho bem a quem puxar.
Um pouco mais tarde, aos dez anos talvez, minha mãe e uma amiga me introduziram a arte do craft. Elas costuravam peças de decoração para serem bordadas e nessa eu aprendi a fazer ponto-cruz. Já viu alguma criança bordando em ponto-cruz, leitor? Mais ou menos nessa mesma época, minha avó materna, também naturalmente crafteira e a tricoteira mais veloz do oeste, me ensinou tricô. E ia eu para a escola com as pontas das agulhas para fora da mochila.
Era sempre a última a ser escolhida na educação fisica, até porque jogava com a maior má vontade do mundo.

Mais a frente, na minha adolescência, enquanto as minhas colegas de sala estavam super preocupadas com os carinhas do ensino médio e andavam com aqueles pirulitinhos pendurados na boca, eu estava mais concentrada no próximo lançamento nas livrarias e em saber se já vendiam café na cantina da escola. Eu nunca tive paciência (e continuo não tendo) para noitadas. Tunt-tunt? “Me inclua fora dessa”.

E assim o tempo foi passando e fui sendo velha. Voltei a tricotar, jogo gamão quando encontro alguém que saiba jogar, gosto muito de ficar paradinha, sentadinha num bar batendo papo. Esses dias comprei uma máquina de costura, para manter a tradição da família. Se deixarem, eu fico só revezando: máquina, tricô, máquina, tricô e nem saio mais de casa.

E, só para completar o pacote, eu bebo chá. Chá é coisa de velho.

E aí? Será que bate o Benjamin Button e eu rejuvenesço um dia ou vou morrer velhinha? Prefiro a segunda. Cadeiras de balanço, aí vou eu!