- Só posso estar louco.
Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça naquele momento. Você já se sentiu louco? Já achou que via o que ninguém vê?
- Você não está louco. – seus olhos amarelos me fitavam com ar de naturalidade. Juro que olhei para os lados, para os rostos das pessoas a minha volta na fila como que procurando alguém que compartilhasse daquela minha loucura, que se sentisse louco junto comigo. Ninguém. Voltei a encarar os desconhecidos antes de responder, para ter a certeza de que ninguém achasse que falava sozinho:
- O que diabos é você?
- Como assim que diabos sou eu? Realmente deve estar louco! Você levou meses se decidindo a meu respeito, horas a fio sentado em frente àquele livro e agora pergunta o que sou eu?!
Sua resposta me obrigou a lembrar. Era verdade. Passara semanas analisando cada detalhe. Cada sombra, cada dobra, cada escama. Era exatamente idêntico ao desenho do livro. Aliás, não sabia ainda nada a respeito do livro, já que meu avô se negara a fazer qualquer comentário a respeito. Na verdade, aquela exótica figura não habitaria agora minha pele se não fosse minha ousadia de roubar a página do livro. Uma atitude drástica, mas necessária, já que o susto do meu velho avô foi tão grande quando toquei no assunto que ele fizera questão de esconder o livro o mais rápido possível.
- Mas como…
- Olha, como eu ainda não sei. A única coisa que sei agora é que esse maldito plástico está me sufocando e se vamos mesmo conviver até o resto de nossas vidas, gostaria que começasse me deixando respirar um pouco.
Levantei o plástico que cobria a cabeça âmbar escamosa e até hoje não sei se por respeito à figura ou à loucura que achei que ela representasse.
- Agradecido.
Me olhava como se o fato de estar falando comigo apesar de ser apenas um desenho fosse a coisa mais normal do mundo.
- Veja bem, – disse me olhando nos olhos – eu não posso te explicar o que está acontecendo. Eu mesmo não sei. Imagino pela sua expressão que está assustado, mas acalme-se, acho que seu avô pode te explicar tudo. - sua voz rouca ecoava e eu torcia para que ninguém mais estivesse ouvindo.
Tentei esquecer sua presença no caminho para casa apesar de sentir a pele que ardia e pinicava a cada movimento que fazia. Na realidade, acredito que era uma tentativa de acordar caso fosse um sonho. Mas não era. Descobri isso quando cheguei em casa, tirei a camisa e, ao olhar no espelho, vi que a estranha figura saira do meu braço direito e repousava agora sobre meu ombro esquerdo, as asas encolhidas, as escamas fechadas, as patas dobradas sob o corpo e a cauda que dava a volta em seu corpo, como que o protegendo. Parecia menos ameaçador com os olhos fechados.
Lembrei da primeira vez que me deparei com sua imagem no livro. Era um livro grande e pesado, folhas amareladas, algumas sem as pontas, coberta por uma grossa capa de couro. Não tinha título. Também não tinha texto. Curiosamente, o livro tinha muitas imagens e, conforme passava as páginas, via que as imagens ficavam mais nítidas, como se tivessem sido impressas a menos tempo. Mais curioso ainda era o fato de que a imagem tatuada agora na minha pele não estava na ordem com as outras, mas separada delas por uma página em branco. Era a última imagem do livro e, depois dela, havia páginas e mais páginas em branco. 
Procurei meu avô assim que cheguei.
-Precisamos conversar. -tentei agir com calma, para não assustá-lo.
-Não, não precisamos. Não quero falar sobre isso. – nunca imaginei que meu avô falaria daquela maneira comigo.
-O senhor precisa me explicar…
-Não, não preciso. Devolva-me a página. E por favor, por tudo o que é mais sagrado, me diga que você não fez a besteira que acho que fez.
Não precisei responder. De início achei que ele lera a resposta nos meus olhos, mas logo notei que na realidade ele apenas se deparou com aqueles enormes olhos amarelos que agora o fitavam do meu pescoço. 
-Santa mãe de…
-O senhor definitivamente nos deve explicações.

 

Fim da primeira parte.

 

Espero que este conto esteja a altura tanto da fantástica idéia original, quanto de quem tem me inspirado idéias que me fazem usar esse meu lado fantasioso e sentir prazer em escrever. Muito, muito obrigada! Esse conto é seu.