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 Meu avô se sentou com dificuldade e pediu que eu lhe fizesse um chá. Debruçado sobre o balcão da cozinha esperando que a água fervesse, ouvi novamente a voz a qual já quase me acostumara.
-Paciência com ele, ok?
-Ele está me escondendo a explicação para essa loucura.
-Ele já está muito velho. Só tenha paciência.
Entreguei-lhe a xícara e ele bebeu um pequeno gole, repousando-a em seguida sobre a mesinha rebuscada que acompanhava a poltrona em que ele se sentara. Todo o conjunto compunha uma visão obscura. A luz do final da tarde, aquela luz alaranjada, entrava de fininho pela fresta da janela da biblioteca escura iluminando as lombadas de apenas alguns livros empoeirados dispostos nas estantes que cobriam três das quatro paredes. Meu avô suspirou e tomou mais um gole do chá. A poeira pinicava no meu nariz e a estranha criatura se movia impaciente agora no meu peito. Meu avô levou a xícara à boca novamente. Tirei a camisa. Meu avô engoliu o chá. Se olhasse para mim uma fração de segundos antes de engolir, com certeza teria se engasgado. Seus olhos estavam quase tão arregalados quanto os meus ao ouvir pela primeira vez a voz rouca produzida inacreditavelmente pelo desenho tatuado em minha pele. Respirou profundamente e fitou o tapete empoeirado:
-Pode sair, Arn.
-Como? – perguntei confuso imaginando que não entendera porque ele falava muito baixo.
-Não falei com você.
-Tem certeza de que quer que eu saia? – a voz vinha de onde meu avô estava, mas não era sua.
-Absoluta.
Da bainha da manga da camisa desceu um largo focinho marrom, acompanhado de pequenos olhos verdes e redondos e um grande par de chifres. A medida que descia pelo braço batendo os cascos, eu podia notar sua figura corpulenta, sustentada pelas patas traseiras. Um par de asas brancas se abria um pouco como um reflexo a cada passo que dava. Sua respiração forte se fazia ora pelas largas narinas, ora pelas guelras úmidas em seu pescoço.
A figura em meu peito havia parado de se debater de nervoso e dirigia agora os grandes olhos amarelos ao braço de meu avô. Arn bufou, acomodou-se e olhou para o meu peito:
-Everd.
-Que… – a figura em minha pele fez um movimento largo com a cauda escamosa de peixe.
-Seu nome é Everd. Não deveria ser eu a te dizer isso, mas não existe outra solução em nosso caso.
-Vovô, o que… – tentei convencê-lo a me explicar aquela loucura quando ouvi o ranger da porta.
-Papai? Você está aí? – meu filho colocou a cabeça na porta atrás de mim.
Everd se encolheu no meu peito e sussurrou:
-Vista a camisa antes que ele me veja.
Obedeci e me vesti enquanto virava para receber o menino franzino que entrava na biblioteca. Não me lembrei de ver se Arn se escondera a tempo sob a camisa de onde saíra, mas imagino que já tivesse experiência o suficiente para ocultar sua presença já que, por toda minha vida nem sequer soubera que meu velho avô possuía uma tatuagem, muito menos uma falante.
-Vou dormir, papai.
Não notara que o dia se fora do lado de fora e que a noite já tomava conta do ambiente. Olhei uma última vez para o rosto enrugado do meu avô antes de sair e ele me deu uma piscadela como que me autorizando a sair e prometendo o fim da conversa para mais tarde.
Acompanhei meu filho até a cama e o cobri. Sentei na beira do colchão, dei-lhe um beijo na testa e ele, com olhos brilhantes de curiosidade comum às crianças às beiras dos 7 anos, disse:
-Papai, esse peixe estranho no seu braço piscou para mim.

Fim da segunda parte.

Repito que, se virar um best-seller, dedico a você. Esse conto é seu. Não tenho motivos para enjoar do que é incomparável, muito menos quando o incomparável é inesquecível.

- Só posso estar louco.
Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça naquele momento. Você já se sentiu louco? Já achou que via o que ninguém vê?
- Você não está louco. – seus olhos amarelos me fitavam com ar de naturalidade. Juro que olhei para os lados, para os rostos das pessoas a minha volta na fila como que procurando alguém que compartilhasse daquela minha loucura, que se sentisse louco junto comigo. Ninguém. Voltei a encarar os desconhecidos antes de responder, para ter a certeza de que ninguém achasse que falava sozinho:
- O que diabos é você?
- Como assim que diabos sou eu? Realmente deve estar louco! Você levou meses se decidindo a meu respeito, horas a fio sentado em frente àquele livro e agora pergunta o que sou eu?!
Sua resposta me obrigou a lembrar. Era verdade. Passara semanas analisando cada detalhe. Cada sombra, cada dobra, cada escama. Era exatamente idêntico ao desenho do livro. Aliás, não sabia ainda nada a respeito do livro, já que meu avô se negara a fazer qualquer comentário a respeito. Na verdade, aquela exótica figura não habitaria agora minha pele se não fosse minha ousadia de roubar a página do livro. Uma atitude drástica, mas necessária, já que o susto do meu velho avô foi tão grande quando toquei no assunto que ele fizera questão de esconder o livro o mais rápido possível.
- Mas como…
- Olha, como eu ainda não sei. A única coisa que sei agora é que esse maldito plástico está me sufocando e se vamos mesmo conviver até o resto de nossas vidas, gostaria que começasse me deixando respirar um pouco.
Levantei o plástico que cobria a cabeça âmbar escamosa e até hoje não sei se por respeito à figura ou à loucura que achei que ela representasse.
- Agradecido.
Me olhava como se o fato de estar falando comigo apesar de ser apenas um desenho fosse a coisa mais normal do mundo.
- Veja bem, – disse me olhando nos olhos – eu não posso te explicar o que está acontecendo. Eu mesmo não sei. Imagino pela sua expressão que está assustado, mas acalme-se, acho que seu avô pode te explicar tudo. - sua voz rouca ecoava e eu torcia para que ninguém mais estivesse ouvindo.
Tentei esquecer sua presença no caminho para casa apesar de sentir a pele que ardia e pinicava a cada movimento que fazia. Na realidade, acredito que era uma tentativa de acordar caso fosse um sonho. Mas não era. Descobri isso quando cheguei em casa, tirei a camisa e, ao olhar no espelho, vi que a estranha figura saira do meu braço direito e repousava agora sobre meu ombro esquerdo, as asas encolhidas, as escamas fechadas, as patas dobradas sob o corpo e a cauda que dava a volta em seu corpo, como que o protegendo. Parecia menos ameaçador com os olhos fechados.
Lembrei da primeira vez que me deparei com sua imagem no livro. Era um livro grande e pesado, folhas amareladas, algumas sem as pontas, coberta por uma grossa capa de couro. Não tinha título. Também não tinha texto. Curiosamente, o livro tinha muitas imagens e, conforme passava as páginas, via que as imagens ficavam mais nítidas, como se tivessem sido impressas a menos tempo. Mais curioso ainda era o fato de que a imagem tatuada agora na minha pele não estava na ordem com as outras, mas separada delas por uma página em branco. Era a última imagem do livro e, depois dela, havia páginas e mais páginas em branco. 
Procurei meu avô assim que cheguei.
-Precisamos conversar. -tentei agir com calma, para não assustá-lo.
-Não, não precisamos. Não quero falar sobre isso. – nunca imaginei que meu avô falaria daquela maneira comigo.
-O senhor precisa me explicar…
-Não, não preciso. Devolva-me a página. E por favor, por tudo o que é mais sagrado, me diga que você não fez a besteira que acho que fez.
Não precisei responder. De início achei que ele lera a resposta nos meus olhos, mas logo notei que na realidade ele apenas se deparou com aqueles enormes olhos amarelos que agora o fitavam do meu pescoço. 
-Santa mãe de…
-O senhor definitivamente nos deve explicações.

 

Fim da primeira parte.

 

Espero que este conto esteja a altura tanto da fantástica idéia original, quanto de quem tem me inspirado idéias que me fazem usar esse meu lado fantasioso e sentir prazer em escrever. Muito, muito obrigada! Esse conto é seu.

 

Antes de qualquer coisa, feliz Ano Novo, meninos, meninas, tartarugas, anões de jardim e leitores imaginários!
Essa é a primeira virada de ano do Chá! Ó, que coisa bonita! Um 2009 cheio de alegrias, surpresas e realizações para todos!

By the way, alegrias, surpresas e realizações são os motivos que me trouxeram aqui hoje, nesse post pedido e inspirado, muito bem inspirado.

Não quero saber de 2008. Esse blog não faz retrospectiva. Alguma vez já pegou o saquinho de chá da lixeira e colocou de volta na água? A não ser que tenha acabado de tirá-lo da água, para dar aquela última mergulhadinha, na busca de um pouquinho só mais de sabor. Aquele rastro de 2008, dias de despedida do ano.

Quero saber de 2009, desse ano que promete. Desse ano que já começou prometendo. Desse ano que não chegou de fininho, como outros já fizeram. Que chegou metendo a mão na porta, sentando no meu sofá, como se já estivesse em casa. Ano abusado e doce. Me pediu um café, recostou nas minhas almofadas e me olhou com cara de quem diz “me aguarde”.

Algumas pessoas já me disseram que sentem que 2009 será um ótimo ano. Eu digo com todas as letras, tenho certeza de que será! Já está sendo.
2009 é o ano da surpresa

2009 chove para lavar a alma e só vai parar de chover quando nos encharcar de felicidade.
Vai abrir o sol para nos torrar de prazer.
Me protege das tempestades e me dá de presente a surpresa de ver o chão molhado sem ter visto o caos.
Acho que faz isso pra me ver feliz.

2009 apaga as luzes na hora certa.
Acho que sabe o que está fazendo.

 

Um brinde de espumante em xícaras de chá! Que 2009 tome café na sua casa também. Que bagunce suas almofadas, implique com seu cachorro e te traga na chuva a felicidade que trouxe pra mim!

A dona da casa.

19 anos, estudante de Letras, nascida e criada em Niterói, enrolada e desligada. Certas dúvidas quanto ao futuro, mas quem tem certeza? Tenho grande paixão por livros e como todas as azeitonas da pizza. Esperava um pouco mais desse mundo e só acerto nos doces. Aceita um chá?

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