Ei, voltei, senhoras, senhores, papagaios, tartarugas e anões de jardim! Antes que apareça a pergunta, não vou postar a próxima parte do conto agora. Ele pede meu lado prosa que não tem estado muito aflorado ultimamente. Mas ele não está abandonado não! Quando menos esperarmos ele reaparece.
Tenho visto mil coisas interessantes por aí e pensado em mais mil que poderia postar aqui no Chá. Porém, viajo amanhã e terei mais duas mil idéias pra postar na volta. Me aguardem. Quando eu voltar da FLIP a gente se fala.
Ah, e eu estou no twitter! @theteabag

O episódio com meu filho me fez pensar que talvez haja algum equilíbrio nesse mundo. Digo porque acredito que a loucura pela qual passei nas últimas horas foi compensada pelo sono arrebatador do menino que, antes que eu terminasse de tentar inventar uma desculpa, já o havia carregado para sonhos tão surreais quanto aquele dia.
Desci as escadas o mais rápido possível, torcendo para que meu avô não tivesse pego no sono na larga poltrona da biblioteca. Mal sentia os degraus sob meus pés a medida que descia correndo. Abri de sopetão a porta que rangeu, sentindo o peso da idade, assim como meu avô, sentado na poltrona empoeirada. Ele fumava um cachimbo antigo de madeira e a fumaça tomava conta da biblioteca. Imaginei que os livros tossiriam muito se não fossem inanimados, mas fiz questão de tirar esse pensamento da mente o mais rápido possível. Já havia conversado com duas tatuagens em menos de 24 horas, ouvir livros tossindo não seria tão assustador a essa altura.
- Acalme-se e sente-se. Temos muito o que conversar. – disse meu avô esticando as costas e recostando confortavelmente na poltrona que soltou uma nuvem de poeira assim que o corpo do velho a tocou.
Obedeci puxando a cadeira da escrivaninha e me sentando a sua frente sem dizer uma única palavra. Meu avô levou o cachimbo a boca mais uma vez, soltou mais um pouco de fumaça no ar e começou:
- Eu era um pouco mais novo que você quando meu pai me mostrou o livro. De cara eu pensei que ele estivesse me gozando, eu não tinha a menor responsabilidade com nada naquela época. Então vi que era sério.
“Nino, nós somos diferentes das outras pessoas, entenda isso antes de tudo. Ninguém pode saber o que estou prestes a te contar porque ninguém entenderia. As pessoas são céticas, Nino. Por mais que a maioria siga uma religião ou uma crença qualquer, as pessoas simplesmente se recusam a acreditar que possa existir algo diferente do que estão acostumadas. Diferente de bíblias e outros livros sagrados e ao mesmo tempo diferente do sobrenatural dos filmes de ficção.”
Everd ouvia tão atentamente quanto eu o que meu avô dizia, os olhos amarelos vidrados no rosto enrugado do velho. Ele continuou:
- Repare na natureza, Nino. Tudo é composto por quatro elementos, disso você sabe. Terra, fogo, água e ar. Repare agora na constituição do meu velho amigo Arn aqui. – Arn estava imóvel, o corpo esticado, em pé no antebraço do meu avô. - O corpo forte de touro é a terra, asas de pássaro representando o ar, guelras de peixe para a água. Alguma coisa está faltando, não está? Pense agora no seu amigo Everd. Corpo de peixe, asas de inseto, pernas de lobo. Acho que falta a mesma coisa, não?
“Se for olhar as figuras naquele livro agora, verá que cada uma tem características dos quatro elementos, menos nossos dois amigos aqui. Cada uma tem também um elemento principal. Arn por exemplo tem base de terra, seu corpo de touro; e Everd tem base de água, o corpo de peixe. Aí está o nosso problema, Nino.”
Ele falava pausadamente, como que para ter certeza de que eu entendia cada palavra e analisava cada centímetro de cada uma das duas figuras que abrigavam nossas peles.
- Nossa família faz parte de uma seleção milenar importantíssima. Junto com outras tantas espalhadas pelo mundo, nós somos responsáveis pelo equilíbrio dos elementos. Você pode ver então que a falta de um deles pode nos causar problemas…
- Você diz o fogo? É o elemento que falta em Arn e Everd. – indaguei.
- Sim.
- Por que isso aconteceu? Por que esse elemento nos falta? – perguntou Arn, sua voz rouca tomou conta da biblioteca.
- Nino, você lembra que há uma página em branco no livro, não é? – Continuou meu avô.
- Sim, lembro.
- Seu pai não seguiu a tradição. Anos atrás, quando ele abandonou sua mãe, não foi para fugir com outra mulher, foi para fugir da realidade. Seu pai sempre foi uma pessoa muito radical na forma de pensar. Ele nunca aceitou nada que o levasse a pensar no sobrenatural, nada que o fizesse sentir menor que qualquer força nesse universo. Seu pai não fez sua tatuagem, por isso a página em branco. A imagem dele só aparecerá quando ele abrir o livro com as próprias mãos. A figura que seu pai deveria ter tatuado tem base de fogo, por isso o fogo está ausente em Arn e Everd. Isso não afeta as imagens dos nossos antepassados porque eles já estão mortos, mas complica o equilíbrio dos elementos no nosso mundo.
- Você quer dizer que nós temos que encontrar meu pai que nos abandonou há mais de 20 anos, mostrar-lhe um livro velho e convencê-lo a tatuar uma figura estranha para manter o equilíbrio dos elementos da Terra?
- Nós não, vocês. Você e Everd. Estou muito velho para isso.
- Vovô, isso é loucura.
- Nunca disse que não era. Só disse que você tem que resolver isso. E rápido.

 

Fim da terceira parte.

 

Eu voltaria no tempo se pudesse. Voltaria cada minuto, cada segundo que passamos juntos, apagaria o mundo. O que nos mata são tantas pessoas a nossa volta. Seria mais fácil se pudéssemos viver de férias, se pudéssemos ser só nós outra vez. Não sei se isso tem solução, mas de uma forma ou de outra, tome cada uma das palavras desse conto como um bom momento. Lembraremos deles juntos ou talvez não, eles estarão aqui de qualquer forma. Momentos nossos num conto teu. Espero que isso passe. Te adoro.

 Meu avô se sentou com dificuldade e pediu que eu lhe fizesse um chá. Debruçado sobre o balcão da cozinha esperando que a água fervesse, ouvi novamente a voz a qual já quase me acostumara.
-Paciência com ele, ok?
-Ele está me escondendo a explicação para essa loucura.
-Ele já está muito velho. Só tenha paciência.
Entreguei-lhe a xícara e ele bebeu um pequeno gole, repousando-a em seguida sobre a mesinha rebuscada que acompanhava a poltrona em que ele se sentara. Todo o conjunto compunha uma visão obscura. A luz do final da tarde, aquela luz alaranjada, entrava de fininho pela fresta da janela da biblioteca escura iluminando as lombadas de apenas alguns livros empoeirados dispostos nas estantes que cobriam três das quatro paredes. Meu avô suspirou e tomou mais um gole do chá. A poeira pinicava no meu nariz e a estranha criatura se movia impaciente agora no meu peito. Meu avô levou a xícara à boca novamente. Tirei a camisa. Meu avô engoliu o chá. Se olhasse para mim uma fração de segundos antes de engolir, com certeza teria se engasgado. Seus olhos estavam quase tão arregalados quanto os meus ao ouvir pela primeira vez a voz rouca produzida inacreditavelmente pelo desenho tatuado em minha pele. Respirou profundamente e fitou o tapete empoeirado:
-Pode sair, Arn.
-Como? – perguntei confuso imaginando que não entendera porque ele falava muito baixo.
-Não falei com você.
-Tem certeza de que quer que eu saia? – a voz vinha de onde meu avô estava, mas não era sua.
-Absoluta.
Da bainha da manga da camisa desceu um largo focinho marrom, acompanhado de pequenos olhos verdes e redondos e um grande par de chifres. A medida que descia pelo braço batendo os cascos, eu podia notar sua figura corpulenta, sustentada pelas patas traseiras. Um par de asas brancas se abria um pouco como um reflexo a cada passo que dava. Sua respiração forte se fazia ora pelas largas narinas, ora pelas guelras úmidas em seu pescoço.
A figura em meu peito havia parado de se debater de nervoso e dirigia agora os grandes olhos amarelos ao braço de meu avô. Arn bufou, acomodou-se e olhou para o meu peito:
-Everd.
-Que… – a figura em minha pele fez um movimento largo com a cauda escamosa de peixe.
-Seu nome é Everd. Não deveria ser eu a te dizer isso, mas não existe outra solução em nosso caso.
-Vovô, o que… – tentei convencê-lo a me explicar aquela loucura quando ouvi o ranger da porta.
-Papai? Você está aí? – meu filho colocou a cabeça na porta atrás de mim.
Everd se encolheu no meu peito e sussurrou:
-Vista a camisa antes que ele me veja.
Obedeci e me vesti enquanto virava para receber o menino franzino que entrava na biblioteca. Não me lembrei de ver se Arn se escondera a tempo sob a camisa de onde saíra, mas imagino que já tivesse experiência o suficiente para ocultar sua presença já que, por toda minha vida nem sequer soubera que meu velho avô possuía uma tatuagem, muito menos uma falante.
-Vou dormir, papai.
Não notara que o dia se fora do lado de fora e que a noite já tomava conta do ambiente. Olhei uma última vez para o rosto enrugado do meu avô antes de sair e ele me deu uma piscadela como que me autorizando a sair e prometendo o fim da conversa para mais tarde.
Acompanhei meu filho até a cama e o cobri. Sentei na beira do colchão, dei-lhe um beijo na testa e ele, com olhos brilhantes de curiosidade comum às crianças às beiras dos 7 anos, disse:
-Papai, esse peixe estranho no seu braço piscou para mim.

Fim da segunda parte.

Repito que, se virar um best-seller, dedico a você. Esse conto é seu. Não tenho motivos para enjoar do que é incomparável, muito menos quando o incomparável é inesquecível.

A dona da casa.

19 anos, estudante de Letras, nascida e criada em Niterói, enrolada e desligada. Certas dúvidas quanto ao futuro, mas quem tem certeza? Tenho grande paixão por livros e como todas as azeitonas da pizza. Esperava um pouco mais desse mundo e só acerto nos doces. Aceita um chá?

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